Se vira nos 60

Pesquisa mostra que os sessenta segundos iniciais da entrevista de emprego são os mais importantes para o candidato conquistar o recrutador e garantir a vaga


Uma volta do inquieto ponteiro é tempo de sobra para você deixar na poeira de uma só vez todos os concorrentes. Enganam-se aqueles que pensam que o tão falado minuto de fama só permeia os planos dos mais exibidos. A preocupação em viver 60 segundos de brilho também mexe com os ânimos de candidatos a um emprego. Quem consegue impressionar o entrevistador em poucos segundos tem mais chances de transformar a empatia em contratação.

‘‘É claro que testes e dinâmicas de grupo pesam na seleção’’, ressalta Patrícia Barreto, da Patrhimônio Humano. ‘‘Mas, geralmente, eles reforçam as percepções do primeiro contato, quando a intuição do recrutador fala mais alto.’’
Pesquisa feita pela American Psycological Association endossa a constatação da consultora brasiliense. Depois de analisar vídeos de entrevistas de emprego, psicólogos norte-americanos concluíram que a forma como o candidato se comporta nos primeiros 60 segundos de contato com o selecionador pode determinar o sucesso da empreitada.

O estudo contou com a participação de 60 caça-talentos. Na primeira fase, eles assistiram a 20 minutos de entrevistas e apontaram os melhores candidatos. Depois, reviram os 15 segundos iniciais das conversas e fizeram novas indicações. Os resultados das duas etapas foram idênticos. ‘‘O tempo é curto, mas o momento é rico em informações’’, pondera Patrícia Alves, da Ótima Treinamento e Desenvolvimento Estratégico. Segundo a consultora, até mesmo a forma como o candidato aperta a mão do recrutador no início da entrevista informa sobre como ele é.

‘‘O corpo e a aparência também falam. Não dá para contratar uma candidata a secretária executiva que aparece vestida informal-mente’’, destaca Patrícia. Não por acaso, Adriana Pereira Coqueiro está convencida: foi a roupa despojada que tirou dela a chance de trabalhar em um luxuoso escritório de advocacia da cidade. ‘‘Cheguei usando calça jeans e bijuterias pesadas’’, descreve. ‘‘Assim que entrei, o entrevistador me olhou com ar de reprovação.’’

Convencida de que a apresentação é tão importante quanto o teor do currículo, a brasiliense recorreu a livros de etiqueta para causar melhor impressão em futuras entrevistas. Há sete meses, ao disputar uma vaga de secretária em uma empresa de Tecnologia de Informação, vendeu o peixe como manda o figurino. ‘‘Em vez de me preocupar com as deficiências, ressaltei o que tinha de melhor’’, conta Adriana. ‘‘Como sabia que a empresa passava por uma fase de reestruturação, reforcei que meu dinamismo poderia ser aproveitado.’’

Contratada, Adriana precisou de dois meses para provar que a primeira impressão não tinha nada de fantasiosa. Trocou o cargo de secretária comercial pelo de secretária executiva da direção. O aumento salarial de 60% e um inusitado pedido do chefe revelaram os efeitos do dia em que se conheceram. ‘‘Ele me pediu para escolher a minha substituta. Acho que só pude fazer isso porque o impressionei quando ainda era candidata’’, orgulha-se.

Sem teatro

Apesar do tradicional nervosismo nas seleções de pessoal, consultores alertam que, no primeiro minuto da entrevista, o candidato precisa ser o mais natural possível. ‘‘Tem gente que chega com discurso pronto e é desmascarado em pouco tempo de conversa’’, conta Paulo Sérgio do Oliveira, da Mercer. ‘‘A dica é não teatralizar. O recrutador astuto quebra a situação com poucas perguntas.’’

Paulo Sérgio alerta que, como a entrevista não se restringe aos 60 segundos iniciais, o candidato é avaliado até o último minuto da conversa. Se no começo aparência, segurança e simpatia chamam a atenção de quem seleciona, no desenrolar do encontro, são as competências técnicas e comportamentais que vão determinar o rumo da conversa. ‘‘O primeiro impacto tem um forte efeito, mas depois buscamos evidências que demonstrem que a pessoa é realmente adequada’’, ressalta Paulo.

O conselho é repetido por Ana Maria Grecco, da Crossing, Segundo a consultora, a experiência faz com que o selecionador geralmente não se engane quando acredita estar diante do candidato ideal. No entanto, se ele não recorre aos instrumentos de seleção, como testes e dinâmicas de grupos, pode cometer injustiças. ‘‘Entre candidatos com o mesmo nível, aquele que impactou no primeiro contato quase sempre acaba escolhido. Mas um profissional ideal não é só imagem, também precisa ter conteúdo.’’

Seis atitudes para fazer bonito na Hora "H"

Evite encenações. Mesmo sabendo que as entrevistas são tradicionalmente tensas, os recrutadores prezam pela naturalidade. Você não precisa contar piadas ou decorar frases de efeito para impressionar. Um selecionador experiente é capaz de descobrir, rapidamente, que está diante de um profissional sem conteúdo, treinado apenas para falar bem

Saia de casa em paz com o espelho e com o bom senso. Escolha roupas que combinem com o cargo desejado. Apresente-se com sapatos limpos e cabelos penteados. As mulheres não podem exagerar nos acessórios. E os homens devem fazer a barba. Um candidato com a aparência desleixada corre o risco de ser confundido com um profissional acomodado

Explore o que você tem de melhor. Em vez de se preocupar com as deficiências, convença o selecionador de que você tem condições de contribuir para o crescimento da empresa. Conte experiências profissionais antigas para ressaltar suas potencialidades. A dica vale tanto para as competências técnicas quanto as comportamentais

Seja simples e direto. Evite falar palavras difíceis e termos usados apenas por profissionais de recursos humanos. Em vez de dizer que você é uma pessoa assertiva, conte situações em que esse tipo de característica se destacou. Além de mais convincente, a postura quebra a formalidade da entrevista

Ouça o recrutador. Ao falar da empresa e da vaga a ser preenchida, ele pode dar dicas do tipo de profissional que precisa. Aproveite o sopro para ressaltar características suas que se encaixam no perfil procurado. Se você perceber que não combina com o cargo, não minta. A sinceridade pode garantir um futuro contato

Tome cuidado com o excesso de ousadia. Se você começa a entrevista dizendo que é a solução para todos os problemas da empresa, pode estar rasgando o próprio currículo. A atitude pode demonstrar excesso de vaidade e até mesmo desespero para conseguir uma colocação no mercado. Opte por atitudes mais comedidas, porém maduras e convincentes