O peso da crise econômica nos salários de TI



Maior parte da indústria de Tecnologia da Informação (TI) coloca o pé em 2003 sem saudades do ano que passou. É compreensível: período que começou morno e ou o segundo semestre com dólar beirando os R$ 4 não foi fácil para ninguém do setor produtivo nacional.
Como sempre acontece nesses casos, foram os funcionários que mais sentiram a situação.
Quem não perdeu o emprego foi obrigado a adiar os planos para conseguir aumento ou promoção e ainda viu a inflação de dois dígitos corroer o poder de compra de seu salário.

Os departamentos de tecnologia ficaram mais enxutos e a dificuldade de recolocação atingiu desde altos executivos até técnicos em início de carreira. Em 2002 praticamente não houve pagamento de bônus, que ocorre sobre resultados positivos. No passado, eram os bônus o maior atrativo das remunerações do setor.
Por que 2002 foi tão ruim para quem trabalha em tecnologia? Existem pelo menos três justificativas: as situações econômicas internacional e brasileira e o conservadorismo nos investimentos em TI. Quando a economia está doente, é o mercado de trabalho que tem calafrios.

O contexto internacional não ajudou. A economia norte-americana passou a maior parte do ano patinando – tanto que a equipe econômica da Casa Branca foi substituída em dezembro. Com problemas internos, as corporações seguraram os investimentos no exterior, o que atingiu diretamente as subsidiárias brasileiras.
"Quando a economia está ruim nos EUA e Europa, as multinacionais não investem nem em seus países, então como investir fora?", indaga Jean Callahan, vice-presidente da consultoria AT Kearney. "Além disso, a crise da Argentina e a situação da Venezuela afetaram a percepção da América Latina como um todo. Algumas empresas de fora não sabem que só São Paulo é do mesmo tamanho da Argentina", critica.

Os problemas domésticos dispensam apresentações. Em 2002 o País enfrentou uma crise cambial cuja intensidade não estava prevista, além das eleições, que deixaram algumas empresas em compasso de espera até que houvesse uma definição da nova política econômica.

Tudo isso engessou as possibilidades de quem atua em áreas relacionadas com tecnologia e telecomunicações. "Tenho mais de 30 anos de profissão e nunca vi um mercado tão preso como no último ano", afirma Ruy Philip, sócio-diretor da empresa de recrutamento Transearch. "Antes das eleições o clima era de nervosismo e tudo ficou parado, inclusive as contratações."

Fim de uma era


Além do contexto econômico adverso, o setor de TI enfrentou problemas próprios. "O mercado de tecnologia estava mal acostumado. Tivemos os ERPs, depois o boom da Internet comercial, a privatização das telecomunicações e o bug do milênio. Tudo isso levou a um aquecimento muito grande desse setor", afirma Alberto Luiz Albertin, professor e coordenador de TI da Faculdade Getúlio Vargas (FGV– Eaesp).

"Agora não existe mais um grande fator que puxe o mercado de TI. As empresas estão pressionadas para cortar custos e se focar em rentabilidade e retorno para os negócios. Os gastos têm de ser melhor justificados."
"Alguns clientes reduziram o pessoal dos departamentos de TI dentro de uma política geral de cortar custos", afirma Regina Scaciotti, sócia-diretora da empresa de contratação Crossing. "Os negócios diminuíram e todos os setores sofreram."

Uma das características do mercado de trabalho em 2002 é que a crise apanhou mesmo quem estava no topo da hierarquia. O vice-presidente sênior da empresa de contratação Korn Ferry, David Ivy, conta que ao entrevistar dois executivos altamente preparados para um cargo de vice-presidente de uma empresa de telecomunicações ouviu de ambos que há meses nem sequer eram chamados para uma entrevista.

Qual profissional foi mais atingido? Aquele que não tem formação acadêmica. "Os novos programadores cursaram faculdade. As pessoas que não são formadas estão enfrentando mais dificuldades para se recolocar", afirma Cristina Spera, gerente de conteúdo do Bumeran, canal de empregos do portal Terra.
Outro aspecto do mercado de trabalho em 2002 foi o aumento da informalidade do setor. "O programador que tinha carteira assinada agora não tem mais", afirma Cristina. "A informalidade está crescendo."
Os salários foram bastante atingidos, mesmo nas empresas que conseguiram crescer. É o caso da Pro IT, empresa de consultoria e desenvolvimento de projetos que possui um braço especializado em terceirização de mão-de-obra em informática, a Talent Pro.

A Talent Pro apresentou um crescimento de 67% no total de horas contratadas comparando-se com 2001. Mas o faturamento cresceu menos – 49% –, mostrando queda de remuneração. A base de clientes aumentou apenas 8% em 2002, o que evidencia que as empresas que já adotavam o modelo passaram a terceirizar mais em 2002.
"Observamos uma retração imposta pelo mercado na remuneração dos consultores, em função do aumento da oferta de mão-de-obra", afirma Luiz Carlos Manni, diretor de tecnologia da Pro IT. "Durante os dois primeiros trimestres de 2002 a taxa horária de consultoria chegou a cair 6%", diz.

O que ocorreu com a Pro IT não é um fenômeno isolado. "O mercado enfrenta um período complicado, mas é interessante observar que várias empresas que fazem outsourcing estão começando a crescer", afirma Jean Callahan, da AT Kearney. "O mais importante é que este é um ótimo período para contratar talentos. As empresas deveriam aproveitar o momento para incorporar bons profissionais aos seus quadros". É o mínimo que se espera de 2003.

Computerworld