Gangorra Corporativa

Nas voltas que o mundo dá, qualidade das relações conta pontos


23 de abril de 2003

Revista Exame - edição 790
Painel Executivo
Por Thais Aiello (painel.executivo@abril.com.br)


O capital social é um patrimônio valioso. Administrado com ética e seriedade, abre portas, encurta caminhos, amplia oportunidades. Mais do que cultivado, precisa ser adubado. Não basta distribuir cartões de visita aleatoriamente, muito menos colecionar contatos que não se concretizam em vínculos fortes. É preciso cuidar das relações, especialmente das mais próximas e diretas. Isso inclui o relacionamento com os subordinados, que podem vir a assumir posições de destaque no futuro. Nesta edição do Painel Executivo, confira o ponto de vista de uma especialista em talentos e o depoimento de um executivo sênior, que sentiu na pele o efeito das voltas que o mundo dá.



SANDRA GUEDES
Sócia-diretora da Crossing – Recrutamento & Recolocação de Executivos

"Na evolução da carreira, bons relacionamentos são tão importantes quanto dispor de um currículo de qualidade. Construir e cultivar relações sólidas demanda um conjunto de atitudes ao longo da vida, tanto no que se refere a superiores, pares e subordinados quanto em relação a ex-colegas e contatos externos. Alguns profissionais parecem desconhecer que relacionamento implica convivência, comunicação, afinidade e ligação de amizade. Enquanto bem empregados e posicionados, muitos negligenciam a importância de nutrir as relações e apenas lembram dos ‘amigos’ quando a gangorra pende para baixo. Nesse momento, surpreendem-se (e desapontam-se) com algumas reações negativas. Acabam, no entanto, finalmente percebendo o quanto descuidaram de seu capital social. A qualidade dos relacionamentos e a postura pessoal e profissional têm peso considerável – e muitas vezes decisivo – no retorno ao mercado de trabalho, na indicação para uma posição interessante ou mesmo na sobrevivência de um negócio próprio. Manter as portas abertas é estratégico para uma eventual volta (ou reviravolta) no futuro. A dinâmica da evolução das carreiras mudou. Se antes o desenvolvimento era linear e mais lento, hoje a ascensão ocorre de forma acelerada. Isso torna freqüentes as histórias de profissionais que tiveram contratações validadas por ex-subordinados ou pares, galgados a posições-chave. É evidente que, nessa hora, pesa muito o aspecto do relacionamento, com o fiel da balança favorecendo o executivo que constrói relações sólidas, respaldadas por uma imagem de admiração e respeito."






NILO CAVAGNARI
Diretor de Desenvolvimento de Negócios da Willis

"No contexto atual, a máxima de que o mundo dá voltas é cada vez mais constante e verdadeira. A exposição dos profissionais está maior, e a dinâmica dos negócios possibilita diversos encontros e reencontros ao longo da carreira, especialmente entre pessoas de um mesmo segmento. Cultivar amizades, respeitar o próximo e dar aos outros tratamento equivalente ao que se gostaria de receber são regras básicas da vida, com excelentes resultados tanto do ponto de vista pessoal quanto do profissional. Como executivo sênior, vi surgir muitos talentos, hoje à frente de postos de comando em grandes organizações. Certa ocasião, quando postulava uma posição no mercado de trabalho, fiquei surpreso ao saber que minha eventual contratação teria de ser referendada por executivos que, vinte anos antes, haviam trabalhado sob meu comando como trainees. Confesso que, embora ciente de ter pautado nosso relacionamento em bases sólidas, senti um frio na barriga, mais por causa do aspecto pessoal do que pelo profissional. Como as pessoas iriam me encarar depois de tanto tempo e em situação inversa? Afinal, o poder de vetar ou validar minha contratação estava com elas. Consegui o posto e tenho certeza de que a qualidade do relacionamento foi decisiva para o desfecho favorável."